Segunda-feira, Julho 26, 2004
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10+ da Wire
Dub & Roots 2003
Rhythm & Sound - With The Artists (Burial Mix/Indigo)
The Bug - Pressure (Rephlex)
Dennis Bovell - Decibel (Pressure Sounds)
Augustus Pablo - In Fine Style 1973-79 (Pressure Sounds)
Cedric Im Brooks & The Light Of Saba - Cedric Im Brooks & The Light Of Saba (Honest Jon's)
King Tubby - The Roots Of Dub/Dub From The Roots (Moll-Selekta)
Keith Hudson - Playing It Cool & Playing It Right (Basic Replay)
Tappa Zukie - Dub Em Zukie: Rare Dubs 1976-79 (Jamaican Recordings)
Prince Far-I - Heavy Manners: The Anthology 1977-83 (Trojan)
Rankin' Joe - Zion High (Blood And Fire)

2002
The Skatalites/King Tubby The Legendary Skatalites In Dub (Motion Records)
The Bug vs The Rootsman featuring Mexican www (Razor X)
Atom ¿/Small Rocks/The Rip Off Artist Dub Tribunl (Inflatabl)
Dry & Heavy Dub Creation (Beat Records)
Cedric 'Im Brooks Lamb's Bread Collie/Version (Honest Jon¹s 12")
Restless Mashaits Kingston Sessions 1992-2002 (Addis)
Stranger Cole/Leroy Heptone Revolution/The Time Is Now (Wackies)
Love Grocer Fresh Produce (DubHead)
V-Neck Millennium (Law&Auder)
Lenky Diwali (Greensleeves)v

2001
Various - Studio One Roots (Soul Jazz)
Niney The Observer - Microphone Attack 1974-78 (Blood And Fire)
The Skatalites - Herb Dub Collie Dub (Motion)
Various - Now Thing (Mo' Wax)
Rhythm & Sound with Cornell Campbell - King In My Empire (Burial Mix)
The Love Grocer - A Little Rain Must Fall (DubHead)
Burning Spear - Spear Burning (Pressure Sounds)
Various - Jack Ruby Presents The Black Foundation (Heartbeat)
King Tubby & Errol Thompson - The Black Foundation In Dub (Heartbeat)
Various - Darker Than Blue: Soul From Jamdown 1973-77 (Blood And Fire)
Various - Dread Meets Punk Rockers Uptown (Heavenly)
Lee 'Scratch' Perry - Born In The Sky: Upsetter At The Controls 1969-75 (Motion)
Lee Perry - Divine Madness... Definitely (Pressure Sounds)
Various Studio - One Soul (Soul Jazz)
Linval Thompson & Friends - Rockers From Channel One (Trojan)
FRANCISCO LINHARES
ecos:




Sexta-feira, Julho 23, 2004
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Será que dá tempo de ir?


FRANCISCO LINHARES
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Quarta-feira, Julho 21, 2004
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Yesss, yessss
Ontem, no Ballroom, Yellow P gave the people what they wanted.
FRANCISCO LINHARES
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Terça-feira, Julho 20, 2004
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Cool Sounds

matéria tirada do L.A Weekly
"I scream, you scream, we all scream for . . . reggae beats." The sweet treats coming from I & I Sound System's converted ice cream truck "painted an eye-blasting red, green, and yellow" come from turntables pumping out irie rhythms.

"It's our mission to bring the music and vibes directly to the people, and this is our creative expression of doing it," says Aurelito, a laid-back dreadhead who, along with partner Shakespeare, came up with the idea during some 'herbal meditation.' Defining what I & I means takes the two to lofty heights. Says Shakespeare: "I & I for me symbolizes the connection with the most high in everyone. No separation. What I have in I, you have in you. Therefore I & I or Eye & Eye or High & High means One." The partners, both of whom use a single moniker, were also inspired by their long-running weekly dance club, Chocolate Bar. "Our parties have been a melting pot of races and styles," says Aurelito. "They've cut across all racial boundaries, bringing a lot of people together through arts and music."

When the spirit moves them, about three times a week, they hit the road. "We've taken the sound system to so many neighborhoods in and around L.A.," he says, driving with the windshield-mounted loudspeaker playing reggae and parking at different locations." They've been known to park the truck at a party, or perhaps in the parking lot of a concert, or at an event such as last year's Sunset Junction street fair, where their crowds rivaled those at the main stages. Adds Shakespeare: "The response has been incredible. From old people waving to us on the streets to kids with giant smiles on their faces throwing up peace signs." It's all about human connection and interaction for the L.A. transplants, Aurelito from the Philippines by way of Chicago, and Shakespeare from Jamaica via New York.

"We plan on taking the sound system on tour and releasing our original music tracks, while documenting it all on video," says Aurelito. The two are considering taking the I & I to the Winter Music Conference in Florida this March", although Shakespeare notes it would have to be towed there. He says they've been talking to sponsors. But even for a pair who have managed to keep a club hopping for six years - as well as work on events for luminaries such as Perry Farrell and Macy Gray - it's not easy finding a backer. "We need to find someone with our vision, compassion and commitment to a higher destiny," he says. "Music and art are our weapons of mass construction."
FRANCISCO LINHARES
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Segunda-feira, Julho 19, 2004
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Santo dia


olha a zona do estúdio do bunny! na foto ao lado, o homem procura mais uma preciosidade. embaixo, confere se o riddim está correto. ao lado, verônica posa com a foto do rei
Domingo, 13 de junho, segundo dia na Jamaica, primeiro de trabalho no documentário, foi um dos mais emocionantes da trip. De agendado, ''só'' a entrevista com o *Bunny Lee, um dos principais incentivadores do dub, mas a imprevisibilidade jamaicana iria aprontar boas surpresas para três brasileiros sortudos.
Tínhamos marcado a entrevista na casa do Bunny Lee, em Waterhouse, porém, uma mudança de planos nos levou ao estúdio do figura, que ficava no mesmo bairro. No meio do caminho, talvez por causa da minha rasgação de seda às parcerias dele com o King Tubby, Bunny Lee mudou a rota para mostrar a casa do rei, na Dromilly Avenue. Sente o drama: conhecer a casa/estúdio do maior mestre da história do dub, dono do mais cascudo sound system da história da Jamaica, o King Tubby's Home Town Hi-Fi. Naquela casa, no quarto do homem, mais especificamente, nascia uma das maiores revoluções musicais do século 20. Lee nos apresentou a viúva do King Tubby, a simpática Verônica. O Bruno relatou no seu blog, muito bem diga-se de passagem, como foi o papo que batemos com ela. Tímida como o ex-marido, a conversa não foi muito frutífera, mas quando ela pediu um minutinho para procurar os álbuns de família, aí sim o bicho pegou. Eram fotos de fazer qualquer um babar. Tubby em família, mixando, dando um rolé com os parceiros e até no caixão, durante o seu funeral. Sinistro.

Depois, ficamos horas no estúdio do homem, esperando ele terminar um trabalhinho para o inglês Simon Smugg, da Smugg Records. Bunny e o engenheiro de som Clivie "Dubking" Jeffrey tiraram de uma pá de fitas master (o estado de conservação onde ficam essas preciosidades é muito tosco, as fitas ficam junto de pneus furados e uma porção de quinquilharias) as acapelas que Smugg queria para o seu novo projeto, algo na linha do "Select Cuts from Blood and Fire", onde novos produtores de dub e eletrônica dão uma roupagem modernética a clássicos jamaicanos. Só que no caso, apenas os vocais serão usados. Nada de riddims. A preferência de Smugg era pelos rock steadys: vocais soul, clima cool.
Ao contrário de qualquer chá de cadeira, a espera pela entrevista foi maravilhosa. Não é todo dia que você escuta originais de músicas como "Stick by Me", do John Holt e "My Conversation", do Slim Smith. Terminada a série de perguntas, mais por causa do Bunny do que por nossa (o cara queria mesmo era tomar umas Heinekens e zoar com os amigos), ganhamos uma carona esperta do engenheiro Clivie, que apesar de desconhecido, tem no currículo as guitarras de "East of the River Nile", do Augustus Pablo, e a letra de um dos maiores sucessos do Earl 16, "Freedom". Tudo isso segundo ele. Mas que eu ouvi da boca do Bunny que o Dennis Brown cansava de chamar o cara de mestre, ah, isso eu ouvi. Clivie é um dos poucos que ainda fazem dub na Jamaica. Mesmo que apenas por diversão. Seu hobbie favorito é comprar riddims que ele gosta e fazer dubs por prazer. Ganhei dois cd's repletos desses dubs, com o estilo bem na linha do Scientist. Mas foi um cd de reggae que ele me deu que fez minha cabeça. Um disco do Congos, de 79, produzido e mixado por ele, nunca lançado. Nunquinha. E vou falar com todas as letras: é bom pra caralho!
Num desses textos sobre a Jamaica eu falei sobre um cantor chamado Gambeeno. Foi com esse cara e com o Clivie que eu gravei (no próprio estúdio do Bunny Lee, só que prensado no Tuff Gong) um dubplate. A letra o Gambeeno inventou na hora, uma ode à maconha que diz algo assim: "se o chicodub ficar sem high grade, seu barco não segue o seu destino". O riddim, Bandulu/Shine Eye Gal. No lado A, os vocais. No B, o dub. Pena que não deu pra avisar antes aqui no blog, mas toquei a música na quarta, com o Digital Dubs e na quinta, na Febre.

*Bunny "Stricker" Lee é um dos maiores produtores da história da música jamaicana. Foi um dos primeiros a ir pra Londres fazer contatos, talvez isso explique o fato das suas produções serem relativamente fáceis de serem encontradas hoje em dia. Como não tinha estúdio nos anos 70, acabou sendo o primeiro produtor a massificar o uso dos riddims. Assim, pagava menos tempo de estúdio, já que os Aggrovators, sua banda de apoio, conheciam de cor e salteado a estrutura de riddims já consagrados. Seu auge está nos anos de 1974 e 1975, quando a batida "flying cymbals", do baterista "Santa" Davis, dominou durante um bom tempo os dancehalls. "Stricker" talvez tenha sido o grande incentivador do King Tubby, pois foi ele quem fez questão de levá-lo a Spanish Town, pra conferir o sound system do Ruddy Redwood, onde as primeiras versions tomavam o gosto popular. Além disso, botou pilha no "Dubmaster" pra ele comprar sua primeira mesa, uma com 4 canais que o Dynamics estava se desfazendo.

chicodub, king tubby e clivie "dubking" mandando ver. todas as fotos são do felipe continentino
FRANCISCO LINHARES
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Mal aê

quarta na matriz, abrindo pro digital dubs. o de casaco é o mr. mpc. fotos do el gonzalez
3 festas na semana + problemas técnicos no computador de casa + casa da namorada pintando = desatualização do blog
FRANCISCO LINHARES
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Oh Lord


FRANCISCO LINHARES
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Quarta-feira, Julho 07, 2004
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Fotitas
Já comecei a salpicar algumas fotos aqui no dubblog. Os cliques são todos do brethren Felipe Continentino, o mané que até agora não fez um fotolog pra colocar as pepitas.
FRANCISCO LINHARES
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As lojas de disco

Visitar uma loja de disco na Jamaica é praticar exercício de paciência. Todos os discos que você quer não tem. E, como todos os 7´ ficam do lado de trás do balcão, ou você tem um olho biônico pra visualizar os riddims e gravadoras - lá é assim, nada é separado pelo nome do artista - ou pede pra entrar dentro do balcão. O que foi o caso.
Como estava bastante ocupado fazendo o documentário e o trabalho para a Zack, deixei pra comprar os discos no final da viagem. Erro fatal. Como ainda ia mudar várias vezes de hotel ao longo da trip e andar prum lado e pro outro numa van lotada, achei que era prudente. Só que não estava preparado pra um toco tão grande. Nada de 70´s. Nadinha de nada. Se tivesse ido antes, e deixado uma lista com os simpáticos vendedores (Rockers e Techniques), talvez o resultado fosse diferente. Vai saber? Mas chega de menosprezar as lojinhas. Depois que eu entrei no clima e comecei a motivar os vendedores - me amarrei na Rockers e na Techniques. A Derrick Harriot´s é uma grande bosta, só serviu pra comprar os ingressos pro tributo ao Coxsonne e a Aquarius valeu pelo caráter emocional, depois explico o porquê - a me mostrar sons novos, o que estava rolando nos rádios e sounds, o negócio começou a ficar mais interessante. Eu gritava detrás do balcão " heavier, heavier, mi want heavier bass lines!" Meus pedidos eras atendidos na hora. Uma porrada atrás da outra. Sempre que gostava de uma música, os vendedores/selectors desfilavam uma série de outros cantores mandando ver em cima do mesmo riddim. Na dúvida, fazer o que, acabava levando mais de um. Destaco a sensacional mixagem do filho do Winston Riley, da Techniques O cara dispensava headphone e o caralho! Achava o ponto certo da música que ia entrar (sem ninguém escutar uma nota sequer), deixava ela tocando durante não mais que um minuto e, ao menor sinal de positivo com a cabeça, jogava o disquinho na minha direção. Taí um cara que sabe vender discos" , falei ao sair da loja. Isso foi tão verdade que depois que saí, às 13:30, o cara resolveu fechar a loja! " Business done for today", ele falou.
A Rockers, cheia de cartazes pra tudo quanto é lado, inclusive um do filme, caíndo aos pedaços, é comandada pelo irmão do Augustus Pablo, e fica em frente a um muro com ilustrações dele e do Dennis Brown, que morou naquela esquina boa parte da sua vida.
Vou contar agora uma historinha que ilustra o valor histórico de ter entrado e comprado alguns discos na Aquarius. Um belo dia, em 1971, Horace Swaby, um franzino jamaicano filho de pai indiano, entra na sua loja preferida pra comprar o disco nosso de cada dia, munido de uma melódica. O dono, Hermam Chin-Loy, interessado no instrumento, pede para Horace tocar algumas notas. Maravilhado, Hermam leva Horace ao estúdio, acho que era o Randy´s. Nascia "Iggy Iggy" e Augustus Pablo.
FRANCISCO LINHARES
ecos:




Segunda-feira, Julho 05, 2004
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Dub Echoes
Leia aqui pra saber mais sobre o documentário, com roteiro meu, que teve o start na Jamaica.
FRANCISCO LINHARES
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Domingo, Julho 04, 2004
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Reggaeteca

Graças a viagem, pude adicionar dois livros a minha reggaeteca: "Reggae, the Story of Jamaican Music", de Lloyd Bradley, com fotografias de Dennis Morris, e "Solid Foundation: An Oral Story of Reggae", de David Katz. O primeiro, que acompanha a série sobre reggae da BBC, nem é tão bom, é como se fosse uma introdução ao assunto, comprei mais pelas (ótimas) fotos. O segundo é casca, mas só recomendável pra quem já sabe alguma coisa sobre música jamaicana, que, no caso do livro, é contada através de entrevistas com os principais artistas da ilha. Mas é do livro do Lloyd Bradley (autor do excelente "Bass Culture") que eu queria destacar uma entrevista, feita com o King Jammy, sobre como anda a cena dos sound systems na Jamaica. O ano é 2002. Ele diz que os sounds vêm perdendo força a cada dia que passa por causa da quantidade absurda de estações de rádio que tocam reggae no dial jamaicano. Com isso, os produtores não dependem tanto dos sound systems pra testar uma música como antigamente. Em vez de produzir um dub plate, os produtores queimam um cd e entregam aos programadores das rádios. O feedback, segundo Jammy, é muito mais forte. O rádio cobre toda a ilha o tempo todo, e muito mais pessoas escutam rádio do que vão aos sound systems. "Só existem quatro ou cinco grandes sounds hoje em dia na Jamaica, e eles tocam muito mais em clubes do que nos quintais das casas "Stone Love, Metro Media, Renaissance. Pra piorar, os sounds, hoje em dia, precisam de permissões especiais por causa do barulho excessivo. As pessoas que vivem nas colinas em volta de Kingston (os ricos e poderosos) não gostam de música alta e estão sempre reclamando com a polícia. "A polícia está sempre atrás da gente, e isso faz qualquer um desistir".
FRANCISCO LINHARES
ecos:




Quinta-feira, Julho 01, 2004
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Mais um pouco sobre Kingston

Viajar pra Jamaica foi uma das coisas mais intensas que fiz. Digo isso porque não é uma viagem previsiva, onde tudo sai como planejado. Pelo contrário, tudo pode acontecer. Tanto pro bem, quanto pro mal. E é aos trancos e barrancos que as coisas vão acontecendo, é como se fosse uma aventura, cheia de emoções, de altos e baixos.

Estou fazendo um documentário, junto com os comparsas que foram comigo, Bruno Natal e Felipe Continentino, e por isso saí do Rio com o esquema mais programado possível. Não tinha quase nenhum contato, mas nossa guia (em vários lugares da Jamaica é recomendável andar acompanhado de um local. Não é frescura, quem já foi sabe do que estou falando. Mas como tínhamos câmeras e mais câmeras, não quis contar com a sorte e arranjar um hustler na rua) parecia ser a pessoa mais indicada para nos acompanhar. Além de possuir um carro e de estar disponível quando precisássemos, ela ainda tinha vários contatos na área musical. Mas o tal esquema perfeito entrou pelo cano. A moça era das mais mercenárias e acabamos ficando sozinhos. O que fez um bem danado pro bolso.

Essa desventura com a guia foi apenas uma das muitas que passamos lá, aos poucos vou contando. Putz, os caras são muito complicados com dinheiro. Apesar de todos quererem uma fatia do bolo - para os jamaicanos, um branco turista é fonte irrestrita de verdinhas - quando o assunto é business, o negócio fica mais complicado. Acho que rola um lance de orgulho, afinal, os caras foram explorados por mais de quatrocentos anos, e há pouco mais de quarenta ganharam independência. Por esse motivo, muitos acham que você é um vampaya, que está ali pra sugar o sangue jamaicano.

Como eu disse no primeiro parágrafo, a Jamaica é um país intenso, e com a comida não poderia ser diferente. São pratos exóticos, apimentados e com personalidade. O que eu mais comi lá (além de junk food, porque os restaurantes fecham cedo) foi ital food, a comida vegetariana dos rastas, sem sal, e pra contrabalancear, ninguém é de ferro, jerk food com rice and peas, um arroz com lentinhas bem diferente do árabe, mais seco. Dois dos melhores restaurantes da viagem foram ital. O Livity fica num lugar alucinante, com a sede da gravadora nu-roots Kariang na entrada e muitos rastas, talvez cantores, não sei, transitando de um lado pro outro. Me consumi de raiva durante horas, quando soube que as noites de dub semanais que rolavam lá (sim, é isso mesmo), chamadas Dub Club foram canceladas por pressão da vizinhança em meio a polícia. O Ashanti fica no meio do Hope Gardens, o Jardim Botânico de Kingston, e tem, de longe, a melhor comida. Só não vale perguntar o que tinha no prato, eu não faço a menor idéia! É tanto nome diferente, somado ao patois carregado da garçonete, que da segunda vez que fui lá, mandei trazer o prato do dia sem nem mesmo perguntar o que tinha. 'Pode trazer que deve ser bom". Hehe. Outras comidas interessantes são o festival, uma massa de farinha de milho frita, servida com molho de alho e o bacalhau, tanto com a fruta ackee, o prato nacional, tanto com fruta pão. O curioso, é que se você comer ackee sem que ela tenha caído da árvore, ela pode te envenenar. "Jamaican poison", meu chapa.

Mais é nos sound systems que a intensidade jamaicana mais se pronuncia. Graves cavalares, assassinos, capazes de matar pessoas de coração fraco, somados a um climão fudido de bom, fazem deste o melhor programa da Jamaica. Isso, é claro (muito bem) acompanhados de uma Red Stripe e de alguns camarões de high grade (essa brenfa, 100% orgânica, com gostinho acentuado de laranja, é igualzinha a um skunk californiano ou de Amsterdam. No meu próximo set, dia 14 de junho, na Casa da Matriz, abrindo os trabalhos pro Digital Dubs, vou tocar um 7" que comprei lá: "High Grade", do Tony Curtis) Fui em três, o da moda, o das antigas e o "roadside", o de beira de estrada. O Rae Town, sempre aos domingos, só toca oldies. Por isso, reúne um público mais amigável, na sua. Fazia, acho, uma semana que o Barry Brown tinha morrido, então, os selectors, além de pedirem um minuto de silêncio, capricharam e tanto nas músicas do cara, como "Politician", "International Step", e "Far East". Que eu me lembre, além dessas, ainda rolaram "Tonight", do Horace Andy, "Once Upon a Time", do Delroy Wilson e "Black Roses", do onipresente Barrington Levy. Saí quando o repertório foi ficando esquisito, fugindo totalmente da música jamaicana. Nas palavras de um local, (lembra quem foi, Bruninho?) o jamaicano se entedia rapidamente com o mesmo som. Faz sentido, é só pesquisar um pouquinho de música jamaicana pra saber que é verdade. Fomos lá com um cara chamado Bucky, irmão do grande Tappa Zukie ('Oh Lord", "MPLA", entre outras) e um jovem cantor chamado Gambino (depois falo mais dele).
O Passa Passa, toda quarta, é o sound system da moda. Fica entre os guetos de Tivoli Guardens e Trenchtown, brabeira pura. Passe lá a qualquer hora do dia, sem ser no horário do sound, e você vai arrumar encrenca das boas. Entrando mais nos aspectos técnicos, as músicas não ficam mais de dois minutos na vitrola, rewinds são mais do que frequentes, efeitos de raio laser de videogame são disparados à toda hora, Sizzla, o homem do momento, toca sem parar e intervenções dos deejays são recorrentes, seja pra anunciar os patrocinadores, seja pra falar o que der na telha, geralmente aos berros. Mesmo com todo mundo dizendo que o lugar é tranquilo, confesso que fiquei meio bolado quando dois tanques do exército passaram pela rua. Assim que eles foram embora, o clima ficou um pouco tenso, isqueiros eram acesos a toda hora e o público foi ficando mais agitado. Hora de ir pra casa.
O mais bacana de todos, muito menos pela seleção de músicas, e muito mais pelo clima, foi o Earthwind, o sound system de beira de estrada. Estávamos no caminho de Port Antonio, cidade cheia de praias lindas, quando o som alto nos chamou a atenção. Paramos na hora e curtimos o pôr do sol num típico sound system jamaicano, completamente sem compromisso, como milhares de outros espalhados pelas rodovias. Pick ups no meio da rua de terra, do lado de uma birosca, com um bando de malucos balançando a cabeça acompanhando os graves. Era exatamente o sound que eu imaginava ir num sonho distante.
FRANCISCO LINHARES
ecos:




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